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Destinos

Pueblos blancos: a Andaluzia que não cabe no postal

Os povoados brancos da Andaluzia não são um cenário uniforme: a cal tem uma função climática precisa, e Setenil de las Bodegas esconde uma singularidade que não se repete em lado nenhum.

Myllena Vieira · ·7 min de leitura
Casas brancas construídas sob a saliência de rocha na Calle Cuevas del Sol, em Setenil de las Bodegas
foto Iván Montoya · CC0

Vistos de longe, os pueblos blancos parecem repetir-se: casas caiadas de branco a escorrer por uma encosta, telhados de telha árabe, uma igreja no ponto mais alto. De perto, a repetição desfaz-se depressa. Cada povoado branco da serra andaluza tem uma razão de estar onde está — defesa, água, rocha, comércio — e essa razão molda a forma da vila mais do que qualquer decreto estético. A cal é o que os une visualmente. Tudo o resto é diferença.

Porque são brancos

A cal não é decoração, é tecnologia vernácula. Aplicada em camadas finas sobre a pedra ou o adobe, reflete boa parte da radiação solar em vez de a absorver — o que em muros que aguentam sol direto de manhã à noite, em julho, faz uma diferença real na temperatura interior das casas. Há também uma razão sanitária, mais recente na sua aplicação sistemática: o hidróxido de cálcio da cal viva tem propriedades bactericidas e fungicidas, e o hábito de recaiar fachadas todos os anos — tradicionalmente pela Páscoa — funcionava como desinfeção anual das paredes, numa região onde epidemias como a cólera marcaram a memória coletiva até ao século XIX. A prática ficou, mesmo depois de a urgência sanitária ter passado, e tornou-se identidade. Hoje muitos municípios da rede de pueblos blancos protegem a caiação por regulamento municipal: não é permitido pintar de outra cor as fachadas voltadas para a rua.

O que os distingue

O erro comum é tratar os pueblos blancos como uma unidade turística intercambiável. Não são. Ronda é uma cidade — mais de 30 mil habitantes, catedral, praça de touros do século XVIII, ligação por comboio e estrada principal — construída sobre um desfiladeiro que a corta ao meio. Setenil de las Bodegas, a menos de meia hora de carro, é uma povoação pequena, de poucos milhares de habitantes, sem essa monumentalidade, mas com uma solução arquitetónica que não existe em mais nenhum lugar da Europa. Mais a sul, na direção do Atlântico, Cádiz já não é um pueblo blanco no sentido estrito — é uma cidade portuária fenícia, uma das mais antigas da Europa ocidental —, mas partilha com a serra a mesma tradição de cal, ali aplicada contra a salitre e a humidade marítima em vez do calor seco do interior. A rota completa da região está reunida em pueblos blancos, e vale a pena tratá-la como um percurso de vários dias, não como uma paragem única.

Setenil: a rocha que já lá estava

Setenil de las Bodegas costuma aparecer descrito como “casas escavadas na rocha”, o que é impreciso e esconde o que realmente o torna singular. Não houve escavação. O rio Guadalporcún, ao longo de milénios, esculpiu no vale um cânion estreito com paredes de rocha calcária que, em vários pontos, formam saliências — verdadeiros tetos de pedra que avançam sobre o espaço abaixo, sem apoio visível. Os habitantes de Setenil não abriram grutas: encostaram casas a essas saliências naturais, usando a rocha já existente como telhado de uma parte da construção e completando as paredes e a fachada com alvenaria e cal. O resultado são ruas como a Calle Cuevas del Sol e a Calle Cuevas de la Sombra, onde se anda literalmente debaixo de um teto de pedra que nunca foi trabalhado por mão humana — apenas ocupado. É essa diferença entre escavar e habitar o que já existia que separa Setenil de qualquer povoação trogloditica do Mediterrâneo, do Marrocos à Capadócia: ali a rocha foi moldada; aqui foi aproveitada como estava.

A escolha não foi estética — foi térmica. A massa rochosa mantém temperatura estável durante todo o ano, e as ruas cobertas oferecem sombra permanente num vale onde o calor de verão fica retido entre as paredes de pedra, sem a circulação de ar que existe nas terras mais altas da serra. Setenil é, na prática, ainda mais quente no interior do seu casario do que Ronda no seu planalto — a topografia de vale fecha o ar em vez de o deixar circular.

Ronda e o Tajo

Ronda resolve o problema do calor e da defesa de outra forma: pela altitude e pelo abismo. A cidade assenta a mais de 700 metros, dividida em duas metades pelo Tajo de Ronda, um desfiladeiro com cerca de 100 metros de profundidade escavado pelo rio Guadalevín. As duas margens só se uniram fisicamente com a construção do Puente Nuevo, no século XVIII — antes disso, a Ciudad medieval e o Mercadillo mais recente eram, na prática, duas povoações separadas por um fosso natural. Essa geografia vertical explica também porque Ronda entrou tão cedo na história militar peninsular: um planalto rodeado de precipícios é uma fortaleza natural, e romanos, árabes e cristãos trataram-na sempre como tal. O mirante sobre o Tajo, junto à Alameda del Tajo e ao longo do passeio que acompanha o desfiladeiro, é hoje o ponto de onde melhor se entende porque a cidade cresceu para dentro em vez de se espalhar — não havia por onde.

O clima real da serra

Quem imagina a Andaluzia como praia e sombra de esplanada costuma levar um susto no interior. Ronda regista médias que chegam aos 30°C em julho, com dias de calor seco típico de planalto andaluz, e recebe cerca de 817 mm de chuva por ano — um valor nada desprezível, mas concentrado quase todo entre novembro e março, o que deixa os meses de verão praticamente sem precipitação. Setenil, mais baixa e mais fechada no seu vale, costuma ficar ainda mais quente do que Ronda nos meses de pico. Isto significa, na prática, que visitar em agosto é caminhar por ruas de pedra e cal ao sol do meio-dia com pouca sombra fora dos troços cobertos de Setenil — desconfortável para caminhar, mesmo que fotograficamente generoso.

Quando ir e como circular

A primavera, entre abril e início de junho, e o outono, de setembro a meados de outubro, oferecem o melhor equilíbrio: temperaturas amenas, luz baixa favorável à fotografia da cal branca contra a rocha, e ainda paisagem verde na serra antes ou depois da seca do verão. O inverno é frio e mais chuvoso, mas tem a vantagem de esvaziar as ruas mais estreitas de Setenil, que em alta época ficam congestionadas de visitantes num espaço que não foi desenhado para multidões.

Circular pela região sem carro é possível mas penoso. Há ligação de comboio a Ronda a partir de Málaga e Algeciras, mas Setenil e a maior parte dos outros pueblos blancos da serra — Grazalema, Zahara de la Sierra, Olvera — dependem de estradas secundárias com autocarros pouco frequentes, muitas vezes um ou dois por dia. Para quem quer encadear vários povoados numa mesma viagem, o carro deixa de ser conveniência e passa a ser condição: sem ele, um itinerário que a pé ou de transporte público levaria uma semana torna-se possível em dois ou três dias. Para desenhar a sequência de paragens e comparar distâncias entre a serra e a costa, as ferramentas de comparar destinos e de planeamento de viagem do site ajudam a decidir quantos dias reservar a cada etapa, e a página de quando ir detalha o clima mês a mês para quem hesita entre a folga da primavera e o silêncio do inverno.

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